Recent changes Random page
GAMING
Science
 
Gaming
Entertainment
Science Fiction
Biggest wikis
Hobbies
Music
See more...

Correspondência

De Abaete

Tabela de conteúdo

[editar] Correspondência

Seguem algumas trocas de mensagens que podem ser interessantes e/ou instigantes.


[editar] Pedro Peixoto Ferreira - Marcio Goldman

25-26/05/05

Caro Marcio, (...). Uma coisa que vi em sua maneira de apresentar Guattari foi o fato de você constantemente fazer referência às suas próprias experiências de campo. Guattari (e Deleuze) como autores que contribuem efetivamente para o avanço da antropologia. Isto me deixou muito animado, pois é assim que eu encaro estes autores (apesar de eu não ter nenhuma queda etnológica). (...) Por fim, gostaria de saber mais sobre aqueles planos do Laboratório de Antropologia Simétrica. Estou muito interessado nestes projetos que você e o Eduardo estão armando para os próximos tempos, tanto pela empatia teórica que temos em torno daquilo que poderíamos chamar de filosofia da diferença quanto pela minha atração (às vezes construtiva, às vezes destrutiva) pela antropologia. Grande abraço, Pedro.


Oi Pedro, legal você escrever (...). Sobre a relação entre a antropologia e Deleuze e Guattari, de fato estou pensando muito nisso agora. Por muito tempo achei que eram coisas absolutamente antagônicas e me vi sempre meio dividido entre minha "profissão" e meus "gostos". Com o tempo fui me dando conta que tudo isso é bobagem e que "antropologia", claro, é o que se faz dela, juntando e entrecruzando muitas coisas. Sobre o LAS, (...) uma das idéias é (...) criar uma rede (que queremos chamar de Abaeté) conectando pessoas e outros grupos. Nesse caso, uma das conexões poderia ser o CteMe, não é? Bom, vamos continuar "conversando". Grande abraço, Marcio.


19-22/06/05

Caro Marcio, (...). Preciso dizer que gostei muito do manifesto e me sinto já de alguma forma participando da Abaeté. Mas preciso dizer também que apesar do discurso trans-especialista, o manifesto ainda é essencialmente antropológico (um sociólogo, por exemplo, não se sentiria convidado). Senti falta, talvez, de uma abertura da genial tríade antropológica Wagner-Strathern-Latour às outras ciências sociais, que poderia talvez ser feita através de referências mais diretas à filosofia (Bergson, Deleuze, Simondon). Por favor não me entenda mal. Eu, particularmente, considero a antropologia a física das ciências humanas (isto é, aquela especialidade que trata dos assuntos mais gerais e essenciais, abarcando todas as outras), e é justamente por isso que, mesmo não fazendo pós-graduação na área, é com a antropologia que eu dialogo (para dar uma idéia, todas as minhas bancas, de monografia, de qualificação do mestrado e de qualificação do doutorado foram compostas pelo Laymert e dois antropólogos). Meu único comentário é que se a intenção da Abaeté é incorporar pesquisadores de outras áreas, isto parece não se refletir no manifesto.


Oi Pedro, Devo dizer (como disse ao Laymert - ver abaixo) que concordo com você. É claro que você entende também por que a coisa acabou com esse tom. Ainda mais porque estamos acostumados (e imagino que vocês também) a lidar com sociólogos que, digamos, não estão particularmente interessados em Bergson, Deleuze, Simondon e conegêneres. Mas o formato Wicki serve justamente para ir modificando as coisas. Neste caso, podermos ir saindo de uma discussão algo paroquial e simplificada (etnologia X antropologia), passar pela inclusão de outras "disciplinas" e ir, quem sabe, desdisciplinarizando totalmente a coisa. Escrevi, improvisadamente, ao Laymert que acho que a verdadeira questão deve se localizar no lugar e na imagem da diferença que pensamentos apenas abrigados sob essas rubricas sustentam. Talvez pudéssemos mesmo colocar esta troca de correspondência na página Wicki (eu daria uma pequena editada e jogaria lá) para ver o que dá. O que você acha? Acho que a questão das relações da Antropologia com a História (como disciplina) certamente logo será levantada. O problema é mesmo nossa capacidade de nos livrarmos disso tudo sem perdermos o que os contrastes podem ter de bom como pontos de partida. Lembrei também, aliás, de um argumento que está nas páginas 362 e 363 do "Mille Plateaux" onde Deleuze e Guattari sustentam que, às vezes, para desestruturar um território conceitual aparentemente seguro e bem protegido precisamos nos opor a ele a fim de gerar uma desterritorialização e, ao mesmo tempo, produzir um novo território. Eles argumentam, então, que, para isso, o território que serve ao mesmo tempo como alvo do ataque e ponto de apoio construtivo

"será tão mais interessante à medida que um músico, um pintor, um escritor, um filósofo se oponha a ele, e até o fabrique para opor-se a ele, como um trampolim para saltar. A história só é feita por aqueles que se opõem à história (e não por aqueles que se inserem nela, ou mesmo a remanejam). Não é por provocação, mas porque o sistema pontual que encontraram pronto ou que eles próprios inventaram permitia essa operação".


Marcio, Quanto a publicar nossa discussão no Wiki, acho formidável (...). E dando continuidade à discussão, eu diria que concordo com vc que é rara na sociologia a abertura consistente (ênfase no "consistente", pois muitos gostam de citar D&G como se fossem pós-modernos) às revoluções moleculares de D&G e companhia. No entanto, vejo o mesmo problema na antropologia (vocês são a excessão), de forma que creio não ser esta uma verdadeira diferença entre a antropologia e as outras ciências humanas e sociais. E por fim, gosto muito da idéia do território como trampolim para a desterritorialização, mas se o território é a antropologia (e não, por exemplo, as "ciências sociais", seja isso o que for), então ainda estamos presos a fronteiras disciplinares (mesmo que apenas de início). Estou me sentindo um chato implicando com tudo isso, mas a realidade é que é só um feedback sobre o manifesto e não um questionamento dele. Como já disse, não imagino outra disciplina senão a antropologia como a origem de grandes reviravoltas nas ciências sociais. No final, acho que é preciso partir de algum lugar (...). Grande abraço, Pedro


[editar] Laymert Garcia dos Santos - Marcio Goldman

18/06/05


Caro Marcio, (...). Gostei do texto da rede - ele é centrado nas questões que incomodam antropólogos e etnólogos e preciso pensar como fica a inserção de um sociólogo nessa praia. Acho que isso só pode se dar tricotando na própria rede (...). A turma do CTeMe já recebeu o manifesto da Abaeté e, pelas primeiras notícias que tenho, gostou (...). Com um grande abraço, Laymert


Oi Laymert, obrigado pela mensagem (...). Você tem toda a razão: escrevemos aquele manifesto com as questões que nos aporrinham, mas agora trata-se de ampliar e positivar a coisa. E acho mesmo que um deslocamento dos entediantes debates sobre o que é sociologia, etnologia e antropologia seria muito bom. Penso, claro, que a questão que interessa é a do lugar e a da imagem da diferença nesses agenciamentos de enunciação. Grande abraço, Marcio


[editar] Comentário Flávio Gordon

Muito interessante a correspondência entre Pedro e Márcio. Tenho algumas idéias ainda confusas sobre estas questões mas, como aqui se trata de uma wiki, talvez deva colocá-las (esta é justamente uma das liberdades que o texto publicado não permite: expor idéias confusas). De qualquer modo, acho que o debate toca em temas fundamentais.

Acho que o Pedro levanta, de fato, questões importantes. Não se trata, penso, de rever (ou tampouco abolir) as fronteiras entre as diversas ciências sociais. Mas concordo que, se antropologia leva alguma vantagem, esta só pode ser entendida no tipo de relações que ela permite estabelecer. Neste sentido, uma primeira questão é a do que se pode entender por antropologia, ou melhor, como se fazer uma antropologia boa para agir “em rede”.

Como diz o Márcio, um bom ponto de partida talvez seja a definição de Lévi-Strauss no texto sobre O lugar da antropologia nas ciências sociais... Ele diz que: “Enquanto a sociologia se esforça em fazer a ciência social do observador, a antropologia procura, por sua vez, elaborar a ciência social do observado”.

Há, a meu ver, uma leitura banal que se poderia fazer desta frase. A ciência social do observado pode sugerir que se trate de uma ciência social específica – a antropologia – sobre um ‘observado’ específico (o melanésio de tal ou qual ilha...). O do observado significaria, na verdade, sobre o observado. É evidente que não se trata disso em Lévi-Strauss, pois no mesmo texto ele afirma categoricamente que a antropologia não se define por um objeto que lhe seja próprio (ela não é solidária com machados de pedra, totemismo etc.). A leitura interessante que se pode fazer, entretanto, é tomar a ciência social do observado no sentido de que o observado é ‘sujeito’ de uma ciência social específica. Esta expressão do observado pode ser literalizada.

Isso se conecta, de certa forma, com o que está dito no Manifesto Inaugural do Abaeté, particularmente sobre Marylin Strathern: o fato de que a antropologia “sobre” as outras sociedades deve levar em conta a antropologia “das” outras sociedades; com a conseqüência importante de que a antropologia “sobre” nossa sociedade talvez possa ser feita com uma antropologia outra. Lévi-Strauss fala de duas “ciências sociais” – a do ‘observado’ e a do ‘observador’. Talvez a antropologia não seja nenhum dos dois termos, mas simplesmente o nome da relação entre “ciências sociais” diferentes, o que lhe daria um potencial relator particularmente poderoso. Ponto importante, a antropologia não seria nunca um conjunto totalizável, mas uma estrutura em transformação. "Antropologia" seria, pois, o encontro, necessariamente parcial e não-totalizável, de diferentes versões de antropologia.

Entendo o “fazer antropologia sobre nós mesmos” a partir de uma outra antropologia como uma das potencialidades notáveis da noção de “antropologia reversa” de Wagner. Aqui se deve, mais uma vez, precisar de que antropologia se trata, pois é provável que a antropologia (palavra) não seja apropriada para caracterizar, por exemplo, uma antropologia (conceito) outra, visto que antropo e logia são parte, evidentemente, do ‘nosso’ conceito de antropologia. Quando falo de antropologia, tanto a nossa quanto qualquer outra, quero sublinhar o fato de que elas implicam ontologias variadas. À parte isso, talvez seja possível fazer com a antropologia o que Wagner fez com a cultura, mantendo o termo apenas para realçar dissonâncias. Assim também como Eduardo faz com a comparação entre ‘nosso’ parentesco e o parentesco ‘amazônico’:

“A decisão de dar o mesmo nome a dois conceitos ou multiplicidades diferentes não se justifica, então, por causa de suas semelhanças, e apesar de suas diferenças, mas o contrário: a homonímia visa ressaltar as diferenças, a despeito das semelhanças. A intenção, justamente, é fazer parentesco querer dizer outra coisa” (cf. EVC, Inconstância..., p. 407).

A intenção aqui é a de fazer a antropologia querer dizer outra coisa. Não importa substancialmente se o que fazemos é antropologia, sociologia, história etc. Será antropologia aquilo que relaciona diferentes antropologias (como também diz Eduardo, “fazer antropologia é comparar antropologias”!). Neste caso, o problema da sociologia é que ela não se relaciona com outra ciência social, ela debruça-se sobre. Além disso, no caso da sociologia, a ciência social espontânea do 'observador' parece ser muito semelhante à ciência social espontânea do 'observado' (este um dos limites que Marylin parece identificar na “auto-anthropology”). Talvez um bom indício de que estamos diante de uma atividade que se pode chamar "antropologia" é quando encontramos uma estrutura gerativa da do tipo que Roy Wagner descreveu: o paradoxo de se imaginar uma cultura para pessoas que não a imaginam para si próprias (cf. The Invention of Culture, p. 27). Isso me lembra também uma frase de Joanna Overing sobre a sociedade amazônica, sociedade que, segundo a autora, "suspeita de sua própria natureza social" (cf. Dualism as an expression of difference and danger..., p. 150). Quando estamos diante de um desencontro conceitual e descritivo deste tipo, é provável que estejamos fazendo antropologia.

Por fim, penso que uma das coisas mais interessantes da rede Abaeté é justamente a possibilidade de, através da etnografia (que, a meu ver, é o que permite estabelecer relações entre antropologias múltiplas), alargar indefinidamente os limites do antropologizável. Talvez seja delírio, mas como seria, por exemplo, uma antropologia sobre o candomblé que lançasse mão da antropologia dos índios amazônicos ou vice-e-versa? Para falar como os já citados Deleuze e Guattari, de que modo podemos traçar um plano de consistência que possibilite tal composição? Bem, como disse alguma vez Lévi-Strauss, nem sobre falsos problemas é proibido sonhar...

Flávio

Dê nota: Share this article: