Discussão:Espaço granulado, espaço inundado
De Abaete
[editar] E o Desenvolvimento Sustentável?
Como diria um presidente do Banco do Brasil ou de alguma agência ligada a ele há algum tempo atrás: "O agronegócio é o Brasil que dá certo!"
E o politicamente-correto de ontem e de hoje para isso também tem o nome de "Desenvolvimento Sustentável".
O problema é que o "Desenvolvimento Sustentável" não se parece com o "espaço inundado" da soja, do pasto ou da estradaria. Teoricamente, defende a permanência do granulado. Ele explora o artesanato indígena sem alisar suas tranças, a coleta cabocla do açaí sem passar trator, e mesmo a forma artesanal com que os seringueiros tiram leite do pau sem arrancar o toco. Seria ele menos mau?
O que é o desenvovimento, afinal? Desenrolar o que está enrolado mas precisa de um empurrãozinho produtivo? Ou, como todos sabem (sabem ou eclipsam?), tirar da terra tudo o que ela dá e acumular capital à vontade? E o que deve ser "sustentado"? Como diria Lafargue, "roubar muito e restituir pouco é filantropia" (A Religião do Capital).
[Nota aos colaboradores: a edição está muito bonita!]
Oi GLJF (punkcanibal :-)): excelentes questões, ótimas para serem destrinchadas (melhor que desenvolvidas, talvez!) em conjunto com o que está sendo lançado na presente página. Poderia ser no corpo da mesma ou em outra seção/página a ela (e a outras) linkada. A idéia é que várias outras páginas sejam produzidas, entrecortadas, e ligadas de maneira não arborescente , ou seja, ela não é de forma alguma uma espécie de "página principal" desse tema ou algo parecido. Então, sinta-se à vontade. A edição é algo chato, tanto na hora de colocar quanto (pior) na de mexer, pois os (muitos) códigos devem ficar no lugar certo, mas achamos que vale a pena o cuidado com eles. Qualquer coisa é só copiá-los e testá-los na "previsão" antes de colocá-los (basicamente foi o que fizemos).
Quanto aos seus pontos, aí vão alguns poucos pitacos:
- Realmente, a própria noção de desenvolvimento parece encerrar em si uma deriva capitalista: no tocante à economia, a busca de um certo produtivismo;
- Nesse sentido, o conceito de "desenvolvimento sustentável" nos parece muito mais um conceito-captor (tal como o conceito de "ritual") ou seja, um conceito estatal, que agrada aos governos por ter a propriedade de atrair para si a diversidade de técnicas e modos de produção não-capitalista, de apropriar-se delas e assim retirar-lhes a textura de suas especificidades. Uma vez estabelecida essa idéia que atuaria como um "selo de garantia" do politicamente correto para os governos, estes começam a dispor dela da maneira que lhe convém, e aí, quase qualquer coisa pode receber o o seu "carimbo" se houver interesses de peso por trás. Não é assim que funcionam os "licenciamentos ambientais" nesse país ?
- Legal o que disse sobre essas formas de extrativismo, produção artesanal, etc, se puder estender a reflexão sobre isso, seria bem interessante.
- A idéia de granulação, a estamos desenvolvendo aqui como um complemento da inundação - captura estatal. Ela está estreitamente ligada a pulverização. A forma rizoma (ou outras a serem pensadas, de acordo com os temas abordados) contrapor-se-ia a elas, posto que o grão nos parece um microcosmo encerrado em si mesmo mas que vem sempre enquanto inundação, ambos ao mesmo tempo causa e efeito das mega-devastações de campo e cidade. Esse título acima, por enquanto, portanto, pende todo para o lado capitalista, posto que o que nos estimulou a escrever foram catástrofes anunciadas no estado do Mato Grosso - a expansão indiscriminada das monoculturas e a construção insdicriminada de hidrelétricas, ambas afetando rápida e diretamente os povos indígenas, com conseqüências irreversíveis ao meio ambiente em geral.
(Aplima e DR)
Salve, Aplima e DR!
"Desenvolver", "destrinchar", acho que o importante ao usar uma noção dessas, nesse caso, é se posicionar frente ao uso corrente para pervertê-lo - ou não -, conforme o que se pretende fazer, ainda que isso seja mais difícil. Acho que ambos os três pretendemos contrariá-lo. Mas talvez o "Desenvolvimento" possa ser uma palavra boa, também, se for para perverter o Desenvolvimento. Isso é outra história...
Quanto à discussão mais direta, acho que eu tinha entendido mal a noção de "granulado", vendo seu comentário agora e relendo o texto.
Então eu reponho minha questão: em que medida o Desenvolvimento Sustentável não se apropria de traços do rizoma para fins monocultores ou totalitários?
A exploração da borracha, do açaí, do artesanato (concordo com vocês, da forma como eu coloquei acima está bem mais "mitopoético", vou tentar destrichar isso para acrescentar ao texto quando vier a inspiração) não chega a ter o aspecto massacrante quanto a da soja, do gado etc., entretanto a pulga ainda fica atrás da orelha. Enfim, essas explorações não deixam de ser monocultoras. Talvez nesse sentido eu compreenda agora sua noção de granulado: uma monocultura disfarçada de diferença.
Imaginemos um pouco exageradamente que alguma companhia inventasse de vender o peixe seco dos Enawene-Nawe sob um selo "ecologicamente correto", defendendo as barragens tradicionais e tudo mais... Quanto tempo levaria para que os demônios do fundo da água viessem cobrar a parte deles? É notável que os Enawene-Nawe tenham suas maneiras de se proteger contra eles (lembro de uma história contada pelo Márcio da Silva de que sacas de sementes de amendoim lhes foram dadas por causa de alguma carestia - mas, em vez de plantar, resolveram fazer um banquete com tudo, para evitar a sanha dos demônios submersos), porém conhecemos outros povos que se associam com maior facilidade às incursões do capital, liberando o terreno para garimpeiros e madeireiros desde que paguem o pedágio ou a proteção.
Isso faz parecer que esses rizomas estejam sendo infectados por dentro... Será que isso servirá como vacina?
Ademais, pensando na sua noção de "granulado", será que tais técnicas de exploração sejam ataques "granuladores" aos rizomas e o "granulado" seja uma forma do "inundado" se camuflar em meio ao rizoma?
(Meu estilo é meio diferente do de vocês, mas vou ver se consigo contribuir...)
(GLJF - ou Punk Canibal, ehehe)
Salve Punk!
É isso aí, agora também entendemos melhor o seu comentário sobre as técnicas hoje chamadas (ou apropriadas enquanto) "sustentáveis". Concordamos plenamente, a pulga continua firme atrás da orelha... e talvez justamente porque o objetivo da coisa continue apontando para uma meta produtivista.
Bem, de toda forma as questões acerca do "desenvolvimento sustentável" nos parecem complicadíssimas de serem abordadas de uma maneira unívoca, ou projecional (que é o modo como o Estado apresenta as coisas). Conforme colocamos acima, o problema com noções como essa é que elas estão por demais impregnadas por um uso captor, daí que devemos tentar escapar do uso que o Estado quer nos impingir - se podemos ou devemos subverter seu uso ao invés de propor outros novos (nossos ou de outros), é uma questão que igualmente não deve ser prevista tão enfaticamente de antemão, nos parece, pois é sempre uma questão de sensibilidade política, algo que só se testa na prática - ao se usar conceitos já desgastados por usos dominantes corre-se o risco de ser ultimately engolido por eles, apesar dos esforços; ao se usar conceitos novos ou "exógenos" (indígenas, etc), corre-se o risco de não se fazer ouvir : enfim, riscos de monta semelhante que devem ser avaliados continuamente segundo "colem" ou não "colem" na deriva que esperamos - ambas as operações são igualmente difíceis, pois o cerne dessa dificuldade não reside pura e simplesmente na "desconstrução do familiar" ou na "introdução do exógeno", mas na quebra de uma dominância que pode vir por um ou por outra, a mágica da "colagem" é conseguir fazê-los conectar com coisas interessantes cuja articulação tenha potencial de fato subversor (quando assim se quer, é claro), e isso é algo que não apenas muda o tempo todo, mas, antes, encontra sempre bravas resistências por parte das articulações dominantes.
De toda forma é certo que esse rótulo da "sustentabilidade" parece estar se transformando em algo muito útil para desviar a atenção, em inúmeras situações, dos tais "demônios do fundo da água (da economia de mercado?)" como vc bem coloca. Apresentadas enquanto detentoras a priori de um "selo verde" (note-se que esse é mais um projeto estatal-mercadológico em andamento!), essas técnicas estão muito mais para "monoculturas disfarçadas de diferença", como vc disse, do que qualquer outra coisa. O problema, nos parece, é não cair na armadilha estatal e manter-se sempre atento às especificidades das técnicas, e não no fato de que elas foram taxadas como "sustentáveis", ou mesmo de "baixo impacto" (como dizem ser as PCHs, por exemplo; "baixo" para quem ? certamente não para os índios - inundações, mudanças drásticas nos fluxos de desovas de peixes, etc); mas também, e talvez principalmente, manter-se atento aos contextos ecológicos (incluídos evidentemente os humanos e sua forma local e histórica de habitação e subsistência/produção) - aliás em seu blog vc relata experiências/movimentos interessantes no contexto urbano de SP. Cada localidade, confluência de determinadas redes, articulações entre dominâncias, contra-dominâncias vai conectar-se com certas técnicas de maneira mais ou menos potencialmente criativa, subversora da dominância do Capital. Tudo isso evidentemente levando-se (e muito) em conta os agenciamentos e conjugações mais amplos, extra-locais, os quais determinam a economia mercadológica como um Sistema Mundial (e seus respectivos pontos de fuga - resistentes ou desviantes). Vender o peixe seco ou o "artesanato" enawene nawe em uma escala de produção mais intensiva certamente significaria um movimento na direção dominante do pensamento-economia de mercado, configurando um movimento talvez bem diferente daquele que talvez tomasse uma outra comunidade que adotasse as mesmas práticas, fosse ela já capturada pelo investimento no trabalho expropriador associado às monoculturas, por exemplo. Esse exemplo dos Enawene que vc sugeriu e o relato do Marcio são interessantes para mostrar que nesse contexto a implantação de um tal empreendimento (ou também algo como a introdução por lá de outras discussões-agendas genérico-estatais que ainda não são percebidas como assunto de interesse por eles) seria desastrosa caso eles não tivessem como acionar seus mecanismos de re-distribuição imediata, como no caso das sacas de amendoim - uma vez que, bem, esse povo indígena, como qualquer outro, também é suscetível a esse tipo de captura (e foi, diga-se de passagem - Maggi pai quase conseguiu passar uma estrada-escoadura no meio da TI). Algumas circunstâncias e congruências tornam-nos resolutos com relação a certas "pressões civilizatórias", digamos, mas quando a devastação (de todo o entorno, p.ex) atinge um ponto irreversível, as coisas se complicam muito, como sabemos.
Com isso não pretendemos de forma alguma pregar o caráter insubstancial, descomprometido, vazio de intenções (seu aspecto "significante", talvez dissessem D&G no AE, em relação ao "significado") de certas técnicas, como se apenas os seus contextos de realização pudessem atestar as suas reais vocações, em nome de uma criatividade vaga porque supostamente infinita: muito ao contrário, pensamos que certas derivas produtivas têm endereço, destinos e proprietários/idealizadores bastante bem definidos. O Estado - ou, hoje em dia, o Mercado - está, desde os seus mais remotos indícios de existência, atrelado a certas tecnologias (como agricultura intensiva, Escrita, Matemática, amplos projetos hidráulicos, máquina de guerra capturada, etc) que sempre lhe serviram muito bem. Usar dos seus artifícios peculiares para subvertê-lo por dentro é um exercício que demanda reavaliações permanentes e sobretudo pouco apego aos supostos novos modos de utilização dos mesmos. Ou seja, dificilmente acreditaremos que a monocultura mecanizada e latifundiária pode apresentar um potencial interessante socioambientalmente falando - ao menos não no âmbito deste longo período histórico no qual nos inserimos e com cujas cargas temos de nos haver. E por isso pensamos que é de fato prudente mantermos "a pulga atrás da orelha" com relação a qualquer desenvolvimentismo, produtivismo que seja. O problema é, mais uma vez e sempre, político: devemos tentar igualmente perceber que o que pode significar uma cessão à economia de mercado aqui pode conter ainda um potencial subversor, desacelerador, acolá - pois é disso que se trata também no tocante à mercantilização da produção : acelerá-la, intensificá-la, incrementar sua eficiência e rapidez. Tratar-se-ia então mais de intensidades relativas: a introdução de uma técnica que imponha um elemento desacelerador, que permita um reinvestimento do desejo em áreas outras que não aquela circunstrita exclusivamente pela produção econômica pode ser bastante potente quanto a uma reversão das prioridades[1]. Pensemos por exemplo nas comunidades que estão retomando, reafirmando sua condição indígena, como analisa o texto (infra) de Viveiros de Castro - como é que elas podem de fato refazer seus territórios (sentido deleuze-guattariano) a partir da retomada de territórios (sentido geográfico) que na maioria dos casos encontram-se depredados, exauridos, etc ? A permacultura, por exemplo, está sendo colocada em prática em localidades de Santa Catarina (além de alhures) cujos solos encontram-se extremamente desgastados. Graças a uma concepção bastante acurada, cuidadosa e informada das várias camadas de relações ecológicas entre as várias espécies a serem cultivadas e o ambiente local, incluindo insetos, anfíbios e outros animais, além de conhecimento acerca do bom armazenamento de água da chuva, etc, é possível fazer esses solos recuperarem seu potencial produtivo. Trata-se, portanto, de um cultura onde a paciência, a observação e o conhecimento acumulados são elementos indispensáveis, assim como nos modos de subsistência ameríndios, embora cada qual com suas especificidades [2].
[Ei, as diferenças de estilo são um ponto positivo, não?]
Aplima e DR
- ↑ O crescimento mundial da demanda por alimentos orgânicos pode operar a introdução de um elemento de desaceleração no passo apressado e avassalador da agricultura dominada por agentes químicos e mecânicos, caso ela venha acompanhada pelo retorno a uma certa noção de sazonalidade, ou seja, as pessoas terão de reaprender a comer sazonalmente, mas também e sobretudo, localmente, ou seja, consumir cada vez mais produtos que não tenham de viajar muito -- algo que vem ganhando força entre certos consumidores europeus, e possivelmente de alhures. Caso contrário, ou seja, se só se deseja o produto sem insumos mas com a variedade de mercado característica das formas agrícolas que os comportam - cuja contrapartida consumidora são hábitos yuppies de amplo acesso ao consumo -, é certo que a agricultura orgânica teria de devastar ainda mais áreas para atender às demandas, dada a muito menor produtividade destas técnicas a curto e médio prazos. O fato é que essas duas "conscientizações" constumam vir juntas. Mas nem sempre as coisas se passam dessa maneira. Outro exemplo de desaceleração hoje buscada por vários países -inclusive o Brasil, embora em seu próprio passo - é o retorno ao chamado "parto natural", ligado a estratégias chamadas - estatalmente tb - de "humanização do parto", algo que em países europeus já se encontra em uma outra fase, a do retorno ao "parto domiciliar", tudo isso contrapondo-se à aceleração representada pelas técnicas cesarianas, que acabam operacionalizando, em países como o Brasil, quase que uma linha de produção, onde o protagonismo das mulheres e das tradicionais parteiras (que poderiam ser inclusive pessoas mais experientes da família) é reduzido praticamente a zero - uma vez que essa manipulação médico-científica está estreitamente associada à imposição da figura masculina enquanto dominante, "anti-histérica", domesticadora - em países da América Latina, por ex, é muito comum este cenário estar associado ao ambiente laboratorial de uma sala hospitalar onde as mulheres são mandadas calar a boca, não gritar, não expressar nenhum sinal de exacerbação, já que, no limite "se souberam fazer, agora que saibam parir quietas" (é o que relatam inúmeras mulheres atendidas pela rede pública) -- nada que uma boa dose anestésica não resolva... [Como se vê, essa questão está muito longe de ter a ver apenas com mulheres de classes média e alta exercendo o seu "direito à escolha", de parir sem dor em uma clínica de grife.] Esse movimento, que tem origem e fôlego de continuidade no movimento feminista desde a década de 60, tem muita força hoje e tem tudo para caminhar bem, sobretudo se pensamos, por um lado, no que pode significar essa reapropriação das mulheres, através de um saber feminino milenar, de processos ligados ao parto e ao corpo - e no potencial desestabilizador de poderes constituídos que isso pode liberar -, e por outro lado, no gradativo abandono - no bom sentido - que ele pode incutir por efeitos colaterais das hoje crescentes manipulações reprodutivas e neonatais verificadas em tantos países: um pouco menos de manipulação, controle e pressa aqui pode, quem sabe, produzir ecos vigorosos acolá... esperemos...só não podemos é nos enganar por muito tempo que poderemos adotar tais e tais medidas de desaceleração do capitalismo mas manter nosso supermercado sempre sortido (cujas mercadorias variam do alimento aos gens) à nossa espera.
- ↑ Isso lembrou-me um outro aspecto do relato das sacas de amendoim contado pelo Marcio: as sementes indígenas, se comparadas às sementes dos "fazendeiros" não-indígenas, são gritantemente melhor adaptadas ao solo local. O milho, cultivado milenarmente por essas culturas, é algo expressivamente distinto em qualidade, sabor, e mesmo tamanho. Isso é algo imediatamente notável, e os Enawene Nawe, por ex, sabem disso e só se utilizam das sementes de iñoti (não-indígenas) complementarmente, e sempre sinalizando como elas são ruins ! (mohokwaniri kaxata iñoti koreto!)