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Discussão:Exceto quem não é (Eduardo Viveiros de Castro)

De Abaete

[editar] Tribos Urbanas, Coletivos Urbanos, Índios Urbanos - Um Pouco de Pierre Clastres na Cidade

O Estado Brasileiro, estranhamente, com essas leis de 88 (número mágico que aqui acaba sendo o contrário do que os fascistas querem que ele seja), dá uma brecha supreendente para... a "Sociedade Contra o Estado" (ou a Socialidade Contra o Estado, como queiram(os))! Como o Congresso Nacional chegou a isso, parece um mistério, ou talvez a comprovação de que o Brasil nunca foi mesmo um Estado Nação ou uma Sociedade Burguesa. Ou que também nunca deixou de sê-los, afinal a identidade precisa daquele pedaço valioso de diferença guardado no fundo do armário da despensa.

Além disso, outro problema: o antropólogo que se recusa a satisfazer o freguês que quer virar índio e se nega a carimbar o visto de "sim" nos passaportes para a Terra Sem Mal (e sua História Sem Fim), teoricamente age contra o Estado, afinal se recusa assumir um papel de funcionário deste (seja de perito, seja de jurista). Mas na prática, no sentido mais pragmático da "prática", age a favor do Estado, já que não aproveita a oportunidade de fazer mais um furinho nessa barragem!

Acho que o medo principal, o medo que está eclipsado por trás daqueles que querem preservar o índio "verdadeiro" contra o índio "falso" é, mesmo, o medo da socialidade contra o Estado. Os medrosos não querem preservar o índio, eles querem é preservar o Estado!

Se o antropólogo já trabalha para o Estado na universidade, se o Estado já banca a pesquisa de campo do antropólogo, por que temer fazer o papel do juiz que diz sim? Ou melhor, da juiza, da mulher que diz sim, da devassa que dá aquilo que todos querem e com tanta facilidade, quase uma deusa matriarcal dos mitos feministas.

Teoricamente, dizer que todos são índios até que se prove o contrário - aliás, que todos são inocentes e devem ser mantidos fora da prisão, fora da gaiola de ferro, fora das celas identitárias do Estado (talvez haja um pouco de socialidade contra o Estado mesmo dentro do Estado) - é o mais coerente, não há como negar. Mas, professor, seria essa a alternativa mais efetiva? Aproveitar a oportunidade para "inocentar" - com ou (de preferência) sem Rousseau - aqueles que forem loucos e sábios o suficiente para se garantirem não seria mais pragmático?

No meio anarquista e/ou libertário - onde a palavra "coletivo" é muito mais ressonante que nos ouvidos majoritários - é comum encontrar críticas a movimentos como o MPL (Movimento pelo Passe Livre - pela gratuidade de transportes coletivos), apontando-lhe um "reformismo" ou uma "contradição" por se utilizar de meios libertários para um fim pouco libertário - afinal, dependente do Estado que bancaria esse apocalipse motorizado "para todos" (que ousassem andar de ônibus). Em compensação, o MPL é um dos movimentos que mais tem feito gente virar-se para uma socialidade mais libertária, por causa de sua "organização social", de seus meios, e tem levado gente a atualizar essas potências, a auto-representar-se nesse devir do transporte gratuito.

A legislação indigenista de 88 e mesmo vosso projeto de lei ultraficcional criam ficções bastante factíveis para (e)feitos de uma atualização do que aqui (na AbaEté) se propõe como alternativa à "Natureza", à "Cultura", à "Sociedade", ao "Indivíduo", enfim, ao Capital, ao Estado. Por que não aproveitar isso? Ainda que, no caso do projeto de lei ultraficcional, seja usar parcialmente o discurso essencialista contra ele mesmo.

Vejo (em sonho, ou em delírio) coletivos urbanos de meninos brancos (ou pretos) leitores de Proudhon e Hakim Bay, praticantes do terrorismo poético ou do freeganismo inventado por nativos da América do Norte, assumindo que o que fazem nada mais é que antropofagia, transformando as velhas "tribos" urbanas em coletivos indígenas da cidade, virando índios, em devir do que teriam sido no passado mitopoético, seja como filhos do violento casamento de bandeirantes com índias (num paradoxo anti-edipiano), seja na migração voluntária porém forçada para velhos territórios indígenas do serrado, dos Tupinambás e Tupiniquins cariocas ou caiçaras, dos Guarulhos ou no planalto de Piratininga, ou na fuga para taperas e prédios abandonados no Anhangabaú (com seus grafites rupestres). Aliando-se, assim, por vizinhanha ou amizade formal (quiçá casamento...), a Guaranis da Zona Sul ou da baixada, Pankararus (quase punks) das favelas, a associações indígenas com suas embaixadas nas capitais. Praticando o nomadismo (tão bem documentado por antropólogos dos movimentos juvenis), resolvendo então aprender sobre seu "princípio" indígena nas bibliotecas ou sobre seu "devir" indígena na internet - pois só não é índio quem não é (aliás, e os Quilombos, não são coletivos indígenas?) - e realizando finalmente o desejo parcialmente reprimido do mitológico personagem do Lobo da Estepe (parcialmente uma versão micro daquela questão macro da identidade que eclipsa em si a diferença), a de entrar nessa festa "só para loucos". A antropologia nunca teria tomado tamanha signficância política para os coletivos urbanos.

Não seria essa a sombra daquele fantasma, a sombra muito mais perigosa do que a própria assombração?

GLJF




Caro GLJF,

você escreve:

Se o antropólogo já trabalha para o Estado na universidade, se o Estado já banca a pesquisa de campo do antropólogo, por que temer fazer o papel do juiz que diz sim? Ou melhor, da juiza, da mulher que diz sim, da devassa que dá aquilo que todos querem e com tanta facilidade, quase uma deusa matriarcal dos mitos feministas.
Teoricamente, dizer que todos são índios até que se prove o contrário - aliás, que todos são inocentes e devem ser mantidos fora da prisão, fora da gaiola de ferro, fora das celas identitárias do Estado (talvez haja um pouco de socialidade contra o Estado mesmo dentro do Estado) - é o mais coerente, não há como negar. Mas, professor, seria essa a alternativa mais efetiva? Aproveitar a oportunidade para "inocentar" - com ou (de preferência) sem Rousseau - aqueles que forem loucos e sábios o suficiente para se garantirem não seria mais pragmático?

Eu responderia:

A 28 mil reais de honorários por laudo antropológico, "aproveitar a oportunidade" é, penso eu, a expressão perfeita. Cordialmente, EVC.

PS:

E você me desculpe, mas eu não trabalho para o Estado coisa nenhuma. E menos ainda pelo Estado. Você diria que trabalhar "na empresa privada" é trabalhar "para a empresa privada"? E quem sabe então, trabalhar "na empresa privada" seria trabalhar "contra o Estado"? Pierre Clastres teria de ser professor na (para a) Faculdade da Cidade? É ruim.

Salve, EVC!

Mas isso não é uma acusação, é o levantamento de uma dúvida ou de uma chance!

Estamos no mesmo barco, buraco, barraco (ou margem, beira, barranco), essa "contradição" me parece fazer parte da profissão do antropólogo (aliás, do trabalho em geral, seja ele público ou privado), a questão é como lidar com ela.

Talvez haja um pouco de socialidade contra o Estado mesmo dentro do Estado; a identidade precisa daquele pedaço valioso de diferença guardado no fundo do armário da despensa; realizar finalmente o desejo parcialmente reprimido do mitológico personagem do Lobo da Estepe (parcialmente uma versão micro daquela questão macro da identidade que eclipsa em si a diferença): tento salientar a dualidade (quiçá multiplicidade) de forças em jogo dentro dessas dividualidades.

Se o Congresso Nacional está "para" o Estado mas inventa algo que parece tanto "contra" o Estado, não custa admitir que o antropólogo também se encontra emaranhado nesse nó sem ponto.

Também vejo as oportunidades de negócio como ameaçadoras, mas talvez hajam boas chances de ócio. Sem ironia ou cinismo: não é à voz do dinheiro que se escutaria, talvez seja o caso de queimar dinheiro, mesmo.

Com cordialidade e admiração,

GLJF



Acho que um complemento interessante, e instrutivo, digamos, sobre a relação complexa e não-unívoca nem consensual que os antropólogos e a antropologia estabelecem com o Estado e suas demandas, como aponta o presente texto, é a relação que a Arqueologia (certamente apenas parte dela) vem declaradamente estabelecendo com empresas.

Vejam, sobre isso, dois links. O primeiro, remete a uma "apresentação" do Presidente da Sociedade Brasileira de Arqueologia para um Congresso em 2003, do qual destacaria o seguinte parágrafo:


"De fato, a Arqueologia, por meio de seus profissionais — docentes, gestores e empresários — muito vem investindo no campo da inovação científica e tecnológica, associando-se a projetos de interesse estratégico e de infra-estrutura na área de circulação [instalações portuárias, hidrovias, duplicações e novas rodovias], produção e distribuição de energia (barragens, gasodutos e linhas de transmissão). Este é o cenário da práxis da disciplina, hoje marcada pela parceria com empreendedores no licenciamento ambiental, procedimento que antes de tudo fomenta o espírito de cidadania e participação coletiva."


De fato, como aponta o newsletter do ISA de hoje (29/08/2006), essa "parceria com empreendedores" vem cada vez mais sendo concretizada - levando-se em conta que o profissional responsável pela coordenação das referidas pesquisas é da área da arqueologia, e não antropologia:


Polêmica no Xingu

"A construção da hidrelétrica de Paratininga 2, situada a 100km do Parque Indígena do Xingu (MT), está cercada de polêmica e encontra-se no centro de uma disputa que envolve líderes indígenas, o Ministério Público Federal, o governador Blairo Maggi, a Funai, o Iphan, além de ONGs, ambientalistas e a empresa responsável pela obra. Líderes indígenas afirmam que a usina estaria sendo construída sobre um dos sítios sagrados dos índios xinguanos, mas um estudo realizado por uma equipe integrada por 21 antropólogos, arqueólogos e historiadores, coordenada pela antropóloga Érika Marion Robrahn-Gonzalez, da USP, indica que o sítio mítico, onde realizou-se em tempos imemoriais a primeira festa do Kuarup, fica em outro lugar"

(Aplima)

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