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Discussão:Filiação intensiva e aliança contra-natureza: sobre a teoria do parentesco em Capitalismo e Esquizofrenia (Eduardo Viveiros de Castro)

De Abaete

[editar] Milles Plateaux e a alternativa à visão troquista do sócius

Gostaria de fazer uma questão ao seguinte parágrafo:


"É meu argumento neste borrador que o Milles Plateaux, no ponto exato de sua tensão com as teses do Anti-Édipo, apresenta a primeira alternativa efetiva (a única que conheço) à imagem troquista do socius, isto é, uma alternativa que não regride ao imaginário do compartilhamento e da solicitude, ao estrategismo do cálculo de poder e do “senso prático”, ou ao consumo-produtivismo meia-bomba (meio Fenomenologia do Espírito, meio Grundrisse). Tal alternativa real envolve uma redefinição radical do que é o horizonte da antropologia, e sobretudo, e portanto, do que pode querer dizer “humano”."


Pois será que não há na Antropologia outra alternativa a isso: a) "compartilhamento e solicitude" b) razão calculista; c) economicismo? Ainda acho ser possível encontrar em Mauss e outros um caminho do meio... Afinal, muitos ramos do caule de Mauss (e alguns entrecruzados ou entrecruzáveis a ele) apontam para uma conjunção paradoxal de interesse e desinteresse, um choque entre troca e gratuidade, entre expropriação (se pudermos englobar com isso a produção) e dívida.




Guilherme: prolongando, primeiro, tua questão, transcrevo uma nota que está na página Abaetitudes:


"La flèche que les uns ne voient pas partir, les autres la voient arriver". Essa frase absolutamente genial do Esboço de uma teoria geral da magia (p.88 de Sociologie et anthropologie) me suscitou a seguinte hipótese, a ser classificada na subseção (a criar) destas Abaetitudes intitulada "Idéias óbvias, absurdas, e às vezes ambas". Mas enfim:
  • A conhecida mistura de espontaneidade e obrigatoriedade, gratuidade e interesse que define o dom segundo Mauss não seria exatamente a mesma coisa - produtora de um mesmo efeito epistemológico sobre o observador, derivado de um mesmo complexo ontológico basal - que a mistura de ceticismo e crença, charlatanismo e sinceridade que nosso autor vê na magia? Não estou falando da simples incapacidade geral dos primitivos de distinguirem etc., mas de uma relacão intrínseca entre o dom e a magia, que se exprimiria nestas misturas aparentemente diversas, mas ambas, note-se, caracterizadas por Mauss como, de alguma forma, (1) sendo "psicológicas"; (2) envolvendo a inclusão complexa do ponto de vista de um outro.
  • Ocorre-me ainda que esta flecha que uns etc. deve ser a célebre flecha disparada por Zenão, aquela flecha "imóvel" que não pára de (não) chegar até nós (entre a mão e o alvo, a eternidade pisca um olho). Aqui vale, por suposto, uma volta ao interessante livro de G. Schrempp, Magical Arrows, especialmente às páginas 188-191.


Bem, isso era só para mostrar que não tenho “problema” com Mauss, muito pelo contrário, e que também acho o paradoxo do dom uma fonte inesgotável de propulsão conceitual. Aliás, a Marilyn que andamos lendo foi um dos antropólogos que mais contribuiram para extrair as condições e as consequências do dito estatuto enigmático (enigmático visto daqui de longe, é claro — da teoria, quero dizer) dos regimes do dom. Mas não dá para voltar a Mauss, no sentido preciso em que Strathern dizia que tal irreversibilidade “não está aberta à adjudicação”. “We need a new position because, whether we like it or not, we cannot recapture past ones” (P.C.: 8).


Caminho do meio — mas entre quê e quê? A imagem do laço social criada pelo “Ensaio” pertence, sob vários aspectos (certamente não todos — pois isso tampouco existe), ao passado. Primeiro, porque ela supõe uma ontologia onde os humanos são entidades sui generis (no sentido que a expressão tem na obra do tio de MM, mas não só). Eles extravazam certamente sua humanidade sobre as coisas que usam para se entreligarem; mas isso não é senão o efeito de uma projeção sistemática (dispositivo teórico inegociável para os durkheimianos, o sobrinho inclusive) do socius sobre o mundo, projeção característica dos mundos sociais (justamente) arcaicos. Acho que hoje não dá mais para pensar o dom como um negócio exclusivo entre humanos. Nós não sabemos mais o que é o humano, e para quem ele é humano. Mudou tudo. Segundo, porque o “Ensaio” pode ser lido como mais uma versão do Leviathan - e não dá mais para pensar o dom na chave do contrato, pano de fundo (mesmo que seja pano de contraste) do “Ensaio”. Mudou a estética: aquilo que antes persuadia hoje não persuade mais. Uma forma que antes criava um efeito autêntico [de conhecimento] hoje não mais o faz. Essas duas frases são do Partial Connections: 11.


Por fim, um ponto de lógica argumentativa. Quando eu falava em uma alternativa mili-planaltina à concepção troquista do socius, note que eu não estava afirmando categoricamente que seria imperioso avançar tal alternativa (ainda que ache que uma alternativa seria bem-vinda, como você pode deduzir do que escrevi acima). Estava dizendo apenas, a rigor, que as outras alternativas ao esquema maussiano (sharing, cálculo, necessidade) são excessivamente desinteressantes, para não dizer ineptas, senão estúpidas.


Saudações, EVC




Salve, Professor!

Grato pela resposta e discussão...

Eu entendo a objeção e aceito um pouco, até certo ponto, a afirmação de que não podemos ignorar a ligação de Mauss com a "visão troquista do socius", tanto quanto a de Lévi-Strauss. Mas há uma impressão de que esses autores apontam para além do terreno em que estavam (ou estão) imersos. Se Lévi-Strauss aponta para o relacionismo, do meu ponto de vista Mauss aponda ainda mais radicalmente para isso. É claro que é "do meu ponto de vista", ou seja: eu (não eu como indivídulo, mas de onde estamos agora) é que vejo a flecha que Mauss (não) lançou...

Bem, essa relação com a magia é uma boa, valeu pela sugestão. Além disso, certamente Mauss é durkheimiano quando se trata dos limites entre humano e não-humano - agora é preciso ir além deles, acho que também estou com a Strathern, então: não dá para deixar Mauss de lado, muito pelo contrário, mas não numa leitura literal.

Aliás, a palestra sobre a noção de pessoa parece também contribuir para aquela outra questão da Abaeté: superação do "indivíduo X sociedade".

Por outro lado, sou um tanto ignorante quanto a Deleuze e Guatari, continuarei lendo o texto para ver aonde vai.

Saudações! (GLJF)

Complementando: sobre a crítica ao fato de que a separação entre humano e não-humano é cara demais a Mauss, parece que ela cabe também ao MAUSS (Mouvement Anti-Utilitariste en Sciences Sociales), pois seria esse o ponto de discórdia entre MAUSS e Bruno Latour, como nos informa o debate a respeito do "construtivismo" trazido à baila pela Revue du MAUSS (2001): http://www.cairn.info/sommaire.php?ID_REVUE=RDM&ID_NUMPUBLIE=RDM_017 Ainda assim, acho que a factibilidade da colocação desse problema num patamar mais "perspectivista", em potência, já está na percepção maussiana de que a coisa, na forma de dádiva, é pessoa.


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