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Discussão:Simetria, Reversibilidade e Reflexividade

De Abaete


[editar] sobre Latour, nosso texto-mãe e uma declaração de Marcos

Lendo uma declaração do sub-comandante Marcos, me lembrei do Latour, primeiro, e do texto-mãe deste wiki, depois. É que acho que a leitura maliciosa do Latour, que todo antropólogo que se preze em algum momento faz, pode ser feita também fora da antropologia para o caso do Marcos e talvez também para nosso texto mãe. Isso, longe de desmerecer a algum dos três (Texto Mãe, Marcos e Latour), os situa como parte dos paradoxos contemporâneos nos quais vale a pena - pelo menos pra mim - refletir. Quer dizer, os coloca no debate atual da política, das ciências ditas sociais e deste wiki (por isso coloco esse comentário na parte "discussão").

Coloco a seguir alguns trechos da declaração de Marcos do 6 de Maio passado, porque parece se localizar no mesmo lugar de onde, às vezes, Latour escreve: esse da passagem desde deployment e stabilization para a composition. Momento esse em que aparecem (para mim, para nós na aula do Latour, talvez para Marcos) as perguntas de “nós quem, cara pálida?”, de “e se os convidados recusam o convite?”, ou de “eu não quero participar do teu common world, meu amigo”. Nesse ponto do argumento do Latour, e na seguitne declaração de Marcos, a política parece ser a mesma coisa: para os dois é, em termos de Latour, “the composition of the common world”; e nesse ponto os dois são os que decidem “what sort of collection and what sort of composition is needed” (:256). Pelo menos, os dois são os que decidem em que termos começar a pensar nesse common world.


EJERCITO ZAPATISTA DE LIBERACION NACIONAL MEXICO Comisión Sexta del EZLN 6 de mayo de 2006

Reciban los saludos de los hombres, mujeres, niños y ancianos del Ejército Zapatista de Liberación Nacional.

Como ustedes saben, la brutal represión policiaca sufrida por nuestros compañeros del Frente de Pueblos en Defensa de la Tierra y los pobladores de San Salvador Atenco, en el estado de México, nos obligó a permanecer en estas tierras para apoyarlos y que puedan salir de la cárcel en la que se encuentran injustamente presos. Todo esto mientras los gobiernos se llenan la boca de mentiras sobre la legalidad y el estado de derecho.

Nosotros lo sabemos bien que detrás de esa agresión está la ambición del poderoso por la tierra, la tierra de Atenco. El nuevo credo que se impone es el de la ganancia y su nuevo dios: el dinero. Como pueblos indios no podemos ver esta agresión sin nada hacer. Tenemos que levantar nuestra voz, nuestro paso y nuestras manos para, por medio de acciones civiles y pacíficas, obligar al rico y a su gobierno a que libere a estas personas nobles y dignas que luchan por la justicia y apoyan al débil.

Ahora el poderoso quiere reconquistar la madre tierra. Ella nos habla y hay dolor, muerte y destrucción en su palabra. Y habla también que hay otros como nosotros, pero diferentes, que también sufren estos dolores que tanto duelen en nuestro color que somos, en nuestra historia. Estos otros y otras son obreros y obreras, campesinos y campesinas, estudiantes, maestros, jóvenes, ancianos y ancianas, niños y niñas, diferentes modos de ser. Tienen en común los cielos que nos cobijan y las rabias que nos alimentan. Para defender nuestra patria, la tierra de la que somos guardianes, tenemos que unirnos con estos otros y otras. Con ellas y ellos tenemos que levantar la bandera de la dignidad rebelde, la misma que ya levantamos en nuestra historia, pero ahora en todo el país y con todos y todas los que abajo somos el corazón olvidado de la Patria.

Para encontrarnos con ellas y ellos, para encontrarnos también como pueblos originarios, tenemos que construir un lugar, un movimiento nacional. Un lugar donde cada quien sea y sea con respeto a su historia y a su modo. Un lugar donde no se imponga ni se desprecie. Un lugar de respeto. Un lugar para escuchar y aprender. Un lugar para conocer al otro, a la otra. Un lugar para ir sabiendo las demandas de abajo y escribirlo y lucharlo: un Programa Nacional de Lucha. Un lugar para sacar el nuevo acuerdo en que viviremos en el Otro México que naceremos: una Nueva Constitución. Este lugar que queremos construir se llama la Otra Campaña, la Otra Política.


Desde la Otra Ciudad de México. Subcomandante Insurgente Marcos.


A declaração completa está em: http://zeztainternazional.ezln.org.mx/index.php?name=News&file=article&sid=151

os realces em negrito são meus.


As comparações entre Marcos e Latour poderiam continuar: à antropologia e a Chiapas os dois chegaram de fora, os problemas do Latour com os termos como action, theory, science & social não devem ser menores dos que o de Marcos com Exército, com “de Liberação”, com Nacional e com Sub-Comandante. E - mais importante - os dois – como nosso texto-mãe – se localizam em um lugar interessante: um lugar onde as portas estão abertas para o novo aparecer, e onde não há respostas prontas que impeçam ver o novo quando passa do nosso lado. Sensibilidade.

A comparação com o texto-mãe vem da idéia de que nele, tanto como em Latour e Marcos, há um balanço e uma caracterização que, em nosso caso, propõe uma nova antropologia, ou uma renovação da mesma, pelo menos para o que nós - os envolvidos na construção do texto - entendemos por antropologia. Marcos vai propor uma "outra" política, nesse sentido.

Estou colocando isso a partir dos problemas que na última aula apareceram nitidamente para o caso do Latour. Minha intenção, então, está longe de ser uma crítica - embora em parte contenha uma autocrítica - porque em certo sentido acho esse incómodo frente a estabilização como necessário para fazer qualquer antropologia (no sentido de escrever, fazer tese, etc.), um texto-mãe, ou conseguir que o governo libere camponeses da prisão.

Meu ponto pode ser resumido então, como um chamado para a exploração de um limite de nosso texto. limite que dialoga com um que é atual para a ANT de Latour, e para a política latino-americana (não por exemplo para a política europeia. Não é que Europa não tenha tido esses momentos - como quando o homo sapiens sapiens saiu das cavernas, ou quando desapareceu o império romano - mas hoje suas novas instituições já nascem velhas).

--Slvdr 16:30, 16 Maio 2006 (UTC)


  • Em lugar de pensar nosso texto como um texto-mãe ou, o que seria pior, como um texto-pai, seria possível tratá-lo como um 'texto-cunhado' ou algo assim? --Flagor 13:46, 18 Maio 2006 (UTC)
  • ou "texto-bando de sogros e cunhados", pelo que talvez deixaria de ser um texto, e seria um verdadeiro bando de sogros e cunhados. (slvdr)
  • Sim. Texto-matilha de lobos antes que texto-papai-mamãe. Texto-rizoma contra texto-árvore genealógica --Flagor 14:18, 20 Maio 2006 (UTC)

[editar] fragmentos do texto-mãe

1. Uma pergunta que se coloca nesse ponto é a de qual é a relação entre "singularidade" e "particularidade", e qual a de "linhas de forças difusas" com a "universalidade absoluta". Qual é essa diferença, e até que ponto os fundamentos que acompanham essa nova forma de pensar (a dos primeiros termos das duas comparações) nos iluminam ou/e nos afastam das "questões mais clássicas da antropologia".


Acho que a distinção entre singularidade e particularidade, por um lado, difusão (ou generalidade) e universalidade, por outro, ajuda a nos afastarmos de alguns dilemas ligados à imagem da antropologia como articulação entre uma unidade (natural) da espécie e uma diversidade (cultural) dos coletivos. Trata-se de evitar uma visão identitária da diferença (como mera relação entre unidades, identidades ou substâncias) e adotar uma perspectiva resolutamente diferencialista: só há diferença, mas estas podem reaparecer em muitos níveis e em muitos lugares, e, em lugar de impedir a relação, são a própria relação. (Marcio Goldman 22:45, 25 Abril 2006 (UTC))


2. Problematizar a noção de alteridade é procurar uma forma de nos libertarmos da inconsciência de "nossa" própria prisão cultural, visto que da cultura (a partir dela, para ela e contra ela) nasce a antropologia e sua noção de alteridade. Mas, se a antropologia é um modo de relacionamento com a alteridade - e se isto é uma espécie de universal do coletivo humano - precisamos talvez nos questionar sobre as experiências variáveis do tempo e do espaço, que são as coordenadas deste nosso conhecimento disciplinar. Se essas experiências (de espaço e tempo) variam, e se delas dependem a percepção do que entendemos por alteridade, como pensar metodologicamente que a antropologia é uma faculdade, digamos, humana (ou universal)?



3. Entretanto, uma questão: assim nunca se poderá fazer antropologia do que é majoritário? Antropologia sobre os eleitores de Lula; antropologia sobre a política de Bush; antropologia sobre o sistema eleitoral; antropologia sobre o amor ao futebol; sobre a crença de que o Brasil tem a melhor seleção de futebol do mundo; sobre o samba; sobre a universidade, a educação formal e o sistema de ensino; sobre o sistema capitalista?


Aqui creio ser preciso recordar, em primeiro lugar, a distinção deleuziana e guattariana entre minoria e minoritário. Enquanto a primeira noção é de ordem apenas quantitativa (uma minoria é "menos" que uma maioria), a segunda conota uma relação de afastamento: o minoritário é o que escapa do padrão ou da escala. Assim, uma "antropologia sobre os eleitores de Lula" teria três escolhas: falar deles de um ponto de vista minoritário; ou - o que é quase a mesma coisa - falar deles a partir do que têm de minoritário; ou virar uma sociologia meio envergonhada de si mesma. (Marcio Goldman 22:45, 25 Abril 2006 (UTC))


Agradeço a resposta! Então, um estudo sobre o capitalismo ou sobre os eleitores de Lula seria só possível através da Sociologia? A Antropologia deve contentar-se em estudar os desvios estatísticos? Ou então, por outro lado, "falar deles de um ponto de vista minoritário", isto é, olhando o majoritário a partir de um terceiro ângulo, um ângulo outro? Isso seria equivalente a a estudar os eleitores de Lula, o capitalismo etc., a partir do que têm de desviante do padrão? Nesse último sentido, qual seria o padrão?--GLJF 18:13, 27 Abril 2006 (UTC)


Bom, não se trata de resposta e não foi bem isso o que eu quis dizer. Primeiro, a distinção sociologia/antropologia que usei é meio boba, mas não tão boba a ponto de se confundir com aquela entre Sociologia e Antropologia como Ciências ou, pior, Departamentos. Trata-se, apenas, de dar nomes diferentes a projetos que creio diferentes - nomes que no final das contas se aproximam razoavelmente bem (mas não totalmente) daquilo que em geral é feito com esses títulos. Desse ponto de vista, e embora isso seja menos fácil do que pode parecer, é claro que é possível analisar o capitalismo etc. como se fôssemos antropólogos, quer dizer, fazendo um esforço para não nos determos nas primeiras impressões. Uma certa vantagem da "antropologia dos povos etnológicos" é que, entre eles, a primeira impressão do etnólogo não coincide com a dos nativos, o que permite a ele, se tiver boa vontade, se corrigir. Entre nós, o problema é que a primeira impressão é quase sempre compartilhada por nativos e antropólogo (que é um nativo nesse caso), o que pode fazer com que este se detenha cedo demais em sua tarefa de livrar-se de suas primeiras impressões - o que, neste caso, só pode ser feito ao se descobrir que também os nativos têm outras impressões. Isso, claro, não tem nada a ver nem com desvios, nem com estatística, mas com resistências políticas e com singularidades (padrão quer dizer simplesmente dominação). (Marcio Goldman 19:46, 27 Abril 2006 (UTC))


"Resposta" foi um deslize de aluno!

Mas compreendo... Estava lembrando daquelas distinções mais banais de separação entre Antropologia e Sociologia, a primeira como o estudo do "outro" e a segunda como estudo da "sociedade moderna". Num certo sentido, a distinção entre minoritário e majoritário pode ser vista como uma contribuição "perspectivista" para uma distinção prática entre as "duas" ciências, o que por outro lado também relaxa um pouco o separatismo rígido sob o qual somos educados a respeito da relação (ou eclipsamento da relação, para usar termos "abaeteanos") entre elas (ainda que se reconheça, lá no tempo mítico, aquela indistinção maussiana geral entre o que é a Sociologia e o que é o estudo dos "povos primitivos"). Porque parece liberar o pesquisador, a despeito do seu "departamento", a fazer um estudo "antropológico" ou "sociológico" dependendo de sua necessidade, ainda que com certos aparatos comuns (a não ser pela diferença de outros elementares metodológicos, ressaltados pelo professor, que acho poder resumir sob o prisma do estranhamento).

Digo "perspectivista" porque, dependendo da perspectiva, podemos afirmar que x foge ao padrão seguido por y e z, mas que de um outro ângulo z foge ao padrão seguido por x e y - e isso até em sentido estatístico, talvez. Se a estatística não for calculada a partir da pessoa "individual" "moderna" mas de nódulos de rede de outros tipos, podemos cair nos exemplos que o professor Goldman já forneceu em aula: "tudo bem, a globalização comercial representa um aumento da rede comercial, mas sob o ângulo dos Bongo Bongo, os contatos espirituais que eles fazem são ainda muito maiores".

Essa idéia de que o olhar antropológico não deve se dar através dos padrões dominantes, no sentido político e coercitivo, mesmo, também é muito estimulante, principalmente por dar brechas pras teorias sociais nascidas no seio da própria "sociedade moderna" mas produzidas por "nativos" eclipsados por serem desiguais, diferentes ou mesmo desviantes.--GLJF 16:46, 1 Maio 2006 (UTC)

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