Memória Abaeté
De Abaete
Esta página pretende ir recuperando um histórico da Rede Abaeté. E se, como já dizia o velho Halbwachs, a memória é um agenciamento coletivo, espera-se que o que se segue vá sendo corrigido, completado, expandido.
Salvo melhor juízo em contrário, cremos que a primeira conversa em que a idéia de criação de "algo", que Eduardo Viveiros de Castro já propunha chamar Abaeté, ocorreu na reunião da ANPOCS em 1996, em uma conversa entre ele, Márcio Ferreira da Silva, Beatriz Perrone e Marcio Goldman. Falava-se, se bem nos lembramos, de uma esterilização do debate intelectual e do pensamento favorecida, em primeiro lugar, por determinado tipo de estrutura organizacional e associativa, assim como por uma certa concepção empresarial da vida intelectual, mas também pelo isolamento dos pesquisadores de acordo com sua especialidade. Não que não reconhecêssemos que a especialização tem sua importância, mas argumentávamos para nós mesmos que também seria fundamental proceder a agenciamentos que seguissem linhas menos disciplinares e mais conceituais.
Em 1998, Eduardo VC e Marcio G decidiram propor à ABA a realização de uma Mesa Redonda na reunião da Associação em Vitória. A Mesa, batizada de "Sobre os Grandes Divisores": 'Etnologia das Sociedades Indígenas' e 'Antropologia das Sociedades Complexas'", foi aceita pela organização. Como Eduardo se encontrava fora do país, a Mesa foi organizada por Marcio Goldman e Federico Neiburg e dela participaram, além dos organizadores, Mariza Peirano e Tânia Stolze Lima.
Peirano apresentou a comunicação "Aqui no Brasil: Aculturação e Invenção na Antropologia"; Neiburg, a comunicação "Antropologia das Sociedades Nacionais e das Sociedades Indígenas: Lugares, Contrastes e Problemas de Conceituação"; Tânia e Marcio, em conjunto, a comunicação "Como se Faz um Grande Divisor?" (que, mais tarde, tornou-se um artigo - "Como se Faz um Grande Divisor? Etnologia das Sociedades Indígenas e Antropologia das Sociedades Complexas", publicado, em 1998 ainda, no nº 3 da revista "Sexta-Feira", e, no ano seguinte, no livro "Alguma Antropologia", de Marcio Goldman).
Parte da proposta da Mesa dizia o seguinte:
- "Um rápido exame da história do pensamento antropológico revela uma curiosa peculiaridade. Nascida como uma "ciência das sociedades primitivas", a antropologia jamais deixou de se referir, de uma forma ou de outra, à constelação social que lhe deu origem. É, no entanto, apenas a partir das décadas de 40 e 50 que a "sociedade do observador" começa a ocupar o centro das análises antropológicas. Movimento que se efetua sob o signo de uma crítica dos "grandes divisores", das tentativas para distinguir "tipos" de sociedades.
- Por outro lado, este movimento acarretou, de modo um tanto paradoxal, uma outra modalidade de segmentação: progressivamente, foi a própria disciplina que tendeu a se dividir entre aqueles que estudam as "outras" sociedades (em geral, "simples") e os que se dedicam a pesquisar sua própria sociedade ("complexa"). O estranho efeito dessa relativa segregação é tornar o diálogo efetivo entre esses "campos" mais tênue do que no momento em que se aceitava a existência de dois tipos de sociedades.
- O objetivo desta Mesa Redonda é iniciar um debate entre pesquisadores especializados em sociedades "indígenas" e "complexas" a partir de um duplo registro. Por um lado, trata-se de debater - à luz das contribuições teóricas mais recentes em torno da "antropologia simétrica" e dos "grandes divisores" - a questão da potencialidade teórica e/ou heurística dessas distinções entre sociedades. Por outro, trata-se de estimular um diálogo que, retomando a melhor tradição antropológica, confronte as contribuições específicas das pesquisas realizadas em sociedades "indígenas" e "complexas", a fim de que possam se fecundar reciprocamente, escapando do aprisionamento em círculos restritos de especialistas e das excessivas concessões ao senso comum".
No ano 2000, por ocasião da XXII Reunião Brasileira de Antropologia (em Brasília), Tânia Stolze Lima e Márcio Ferreira da Silva coordenaram o Fórum "Teorias Etnográficas da Segmentaridade", cujo resumo dizia o seguinte:
- Elaborada por Durkheim no intuito de caracterizar sociedades tidas como simples, a noção de segmentaridade foi convertida em conceito operacional ao longo dos anos 40 pelos antropólogos britânicos que estudavam os "sistemas políticos africanos". Resumidamente, tratava-se de demonstrar que na ausência do Estado, outras instituições sociais, as linhagens, desempenhariam funções consideradas próprias a ele. As oposições diacrônicas entre sociedades baseadas no status ou no contrato foram rebatidas na sincronia, e as "sociedades segmentares" caracterizariam a mediação entre o "sangue" e o "território".
- A noção de segmentaridade foi assim incorporada à teoria dos grupos de descendência, a qual foi objeto de críticas desde pelo menos o final da década de 50. Por outro lado, mais recentemente, a noção vem sendo recuperada através de um duplo processo de distensão e de refinamento conceituais. É preciso admitir inicialmente que a segmentação pode operar não só em contextos etnográficos onde o tempo social não é determinado como tempo genealógico, mas também segundo outros regimes, em que os processos de fusão e fissão não são tomados como princípio de totalização de sociedades de um certo tipo. Torna-se possível, assim, "generalizar" o conceito, livrando-o da "grande divisão" entre sistemas segmentares e sistemas estatais, ou entre sociedades "primitivas" e "modernas".
- O objetivo deste fórum é justamente reunir pesquisadores que trabalham com grupos sociais ameríndios ou urbanos, e que acreditam ser a noção de segmentaridade um instrumento eficiente para o trabalho etnográfico. Mais do que isso, que acreditam ser essa noção uma ferramenta capaz de articular o nível mais analítico da investigação com dimensões mais abrangentes, funcionando assim como chave para a construção de "teorias etnográficas" passíveis de justaposição e de interfecundação. Esperamos, desse modo, que as comunicações a serem aqui apresentadas obedeçam a três critérios básicos: viés etnográfico; dimensão comparativa; emprego da noção de segmentaridade.
Desse encontro, participaram seis "etnólogos" e quatro "antropólogos", e muitas das comunicações se converteram, mais tarde, em artigos, dissertações, teses e livros ou partes de livros.
(Ver, por exemplo: Segmentaridades e Movimentos Negros nas Eleições de Ilhéus (Marcio Goldman)
Ainda que não diretamente voltado para os grandes divisores e a antropologia simétrica, o Seminário Temático "A Antropologia e seus Métodos: o Arquivo, o Campo, os Problemas" - coordenado por Marcio Goldman e Emerson Giumbelli no XXV Encontro Anual da ANPOCS, em 2001 - acabou sendo importante na constituição da Abaeté. Alguns artigos derivados do seminário atestam essa ligação:
Para Além do "Trabalho de Campo" (Emerson Giumbelli)
Os Tambores dos Vivos e os Tambores dos Mortos (Marcio Goldman)
Parte da "definição da temática" do seminário dizia ainda:
- Como se sabe, a partir da década de 20, e com força cada vez maior, os antropólogos passaram a questionar o privilégio concedido ao eixo temporal pela antropologia vitoriana. A conseqüência metodológica dessa crítica é bem conhecida: em lugar de hipotéticas reconstruções do passado, ênfase na pesquisa direta de campo como único meio de coleta de dados. Ao mesmo tempo, a investigação direta de sociedades de pequena escala distintas da do observador é oposta à reflexão de gabinete e à utilização de material de segunda ou terceira mãos. Em função disso, "trabalho de campo" e antropologia tornaram-se noções praticamente indissociáveis. Ainda que desde a década de 30 alguns antropólogos norte-americanos tenham se dedicado à reflexão sobre sua própria sociedade (utilizando para isso, além da pesquisa direta, material de arquivo), é na década de 50 que uma importante inflexão na história da antropologia começa a se acentuar. O processo de descolonização, principalmente na África, fez com que os antropólogos se vissem obrigados a, de alguma forma, "perseguir" seus "objetos tradicionais" no rastro de sua "modernização". Desse modo, a chamada "antropologia urbana" se desenvolve na Inglaterra a partir da década de 50 seguindo o fluxo de migrantes africanos na direção das cidades coloniais. A esse progressivo deslocamento do eixo empírico da investigação antropológica corresponde, evidentemente, uma outra mudança metodológica: materiais de arquivo, registros históricos, produções escritas das sociedades investigadas se acrescentam aos dados obtidos em primeira mão pelo antropólogo com sua técnica de "observação participante". Finalmente, uma certa reviravolta epistemológica completa o quadro. Ao longo das década de 80 e 90, o chamado "pós-modernismo" antropológico não se cansou de insistir sobre algumas ilusões do método tradicional da antropologia, e a convidar os antropólogos a refletirem acerca dos efeitos de sua relação com os "nativos" sobre sua própria prática, e sobre as análises e teorias que produzem (...).
- Diferentes métodos serão simplesmente complementares ou alternativos? O trabalho de campo e a observação participante continuam sendo as pedras de toque metodológicas da antropologia ou devem ser substituídas (ou completadas) por entrevistas, aplicação de questionários, pesquisa em arquivos, e mesmo investigação bibliográfica? Como se dá a inserção do pesquisador em diferentes objetos e diferentes contextos de investigação? Será possível aplicar os mesmos métodos de investigação a objetos aparentemente tão diversificados quanto, por exemplo, uma sociedade indígena e um partido político? A oposição entre sociedades simples e complexas é metodologicamente relevante? Quais seriam as fronteiras, hoje, entre investigação antropológica, sociológica e histórica (e no limite como se poderia definir a antropologia na atualidade)?"
Naquela mesma reunião da ANPOCS de 2001, Eduardo Viveiros de Castro coordenou um GT intitulado “Uma notável reviravolta: antropologia (brasileira) e filosofia (indígena)”, onde apresentou um trabalho mais tarde publicado sob o título "O nativo relativo", no qual os temas da antropologia simétrica e da etnologia filosófica são conjuntamente oferecidos à consideração dos leitores.
Na XXIV Reunião da ABA (em Olinda), o Fórum de Pesquisa "Políticas e Subjetividades nos 'Novos Movimentos Culturais'", coordenado por Miriam Hartung e Marcio Goldman, apresentava como parte de sua "justificativa de proposta" um eixo que também pode permitir conexões simétricas:
- As décadas de 1960 e 1970 foram o palco da emergência do que ficou conhecido como novos movimentos sociais. A maior novidade desses movimentos foi a identificação de formas de opressão fora da esfera econômica, e o abandono da idéia da identidade de classe como identidade central de toda luta política. Novas identidades emergiram e se politizaram - identidades que, não obstante, nunca deixaram de apresentar um aspecto algo paradoxal: o fato de enfatizarem mais a diferença do que, justamente, a identidade. O correlato acadêmico desse processo, como também se sabe, foi a eclosão de uma infinidade de pesquisas e teorias da identidade, compreendida como fenômeno relacional e fundamentalmente político.
- Ao longo dos anos 1990, contudo, um certo desdobramento do processo ocorrido nas duas décadas anteriores parece ter se manifestado: o progressivo surgimento, ao lado desses novos movimentos sociais, do que poderíamos denominar novos movimentos culturais. A saber, movimentos minoritários - negros, indígenas, de gênero etc. - que buscam se ancorar no que eles mesmos denominam "cultura". Tudo indica, entretanto, que as categorias analíticas adequadas para o estudo desse fenômeno ainda se encontram em fase de elaboração. Assim, continuamos a falar de "identidades" quando se trata de "subjetividades"; seguimos falando de "política" em seu sentido tradicional quando se trata de "micropolíticas" muito particulares.
- Esperamos que as comunicações sigam as seguintes linhas de orientação:
- - Enfoquem situações minoritárias, apresentando como objeto empírico grupos ou situações em que linhas de fuga e processos de enfrentamento da dominação majoritária sejam detectáveis;
- - Possuam viés etnográfico abrangente, evitando isolar as dimensões identitárias da totalidade dos processos (materiais, simbólicos, políticos...) nos quais os grupos estão envolvidos;
- - Explorem êmica e eticamente noções como as de subjetividade, cultura e política;
- - Abram perspectivas comparativas.
Ainda em 2004, por ocasião do XXVIII Encontro Anual da ANPOCS, Eduardo Viana Vargas organizou a Mesa Redonda "A Favor da Diferença, ou, Para que Servem os Autores 'Menores'". Nela, o organizador, Amir Geiger, Eduardo Viveiros de Castro e Marcio Goldman, embaralharam um pouco as fronteiras entre "etnologia" e "antropologia" ao tratar, respectivamente, em conjunto e sob o signo do "minoritário", das obras de Gregory Bateson, Gabriel Tarde, Pierre Clastres e Lucien Lévy-Bruhl.
Ao longo do segundo semestre de 2004, alguns encontros ligados às questões dos grandes divisores e da antropologia simétrica foram realizados nos quadros dos encontros "Sextas na Quinta", organizados pelo Núcleo de Transformações Indígenas (NUTI), coordenado por Eduardo Viveiros de Castro:
- - Discussão sobre direitos de populações autóctones (03/09/2004);
- - "Identidade: isso pega?" (17/09/2004);
- - "Para uma Antropologia Anarquista" (08/10/2004);
- - "Divisores e Dividendos: sobre as ressonâncias entre os grandes divisores, ou, qual exatamente o problema com a pergunta: o que nos faz (a nós modernos -> ocidentais -> humanos) diferentes? (05/11/2004).
No primeiro semestre de 2005, os encontros continuaram e quatro deles, principalmente, foram fundamentais para a consolidação da Abaeté:
- - "Liberdade Cognitiva: novos instrumentos jurídicos e tecnológicos" (Palestra de Ronaldo Lemos, da FGV, 18/03/2005);
- - "Autour de Latour: sobre a idéia de antropologia simétrica" (Debate Livre, 15 de Abril de 2005);
- - "Tecnociência e Reconfiguração da 'Natureza Humana'" (Palestra de Laymert Garcia dos Santos, da Unicamp, 10 de Junho de 2005);
- - "Simetria, Reversibilidade e Reflexividade: ainda sobre grandes divisores e pequenas multiplicidades" (Debate Livre, 24 de Junho de 2005).
No segundo semestre de 2005, os encontros continuaram: e quatro deles, principalmente, foram fundamentais para a consolidação da Abaeté:
- - “Xamanismo e possessão” (Debate livre; 19 de agosto de 2005);
- - “Ontologia e multiplicidade no candomblé” (Marcio Goldman; 02 de setembro de 2005);
- - “Novos coletivos” (Flávio Gordon, Julia Sauma, Cecilia Mello; 09 de setembro de 2005);
- - “Política, Mito e Ciência: Locke no Xingu e as Antropomíticas do Estado” (Marina Vanzolini, Francisco Araújo, Salvador Schavelzon, Emerson Giumbelli; 16 de setembro de 2005);
- - “Tradução e Poética nas Artes Verbais Marubo” (Pedro de Niemeyer Cesarino; 23 de setembro de 2005);
- - “O Anti-Narciso: um programa de etno-antropologia” (Eduardo Viveiros de Castro, Flávio Gordon, Francisco Araújo; 30 de setembro de 2005);
- - “Un manuscrit inédit du cosmographe André Thevet sur le Brésil: l'Histoire de deux voyages (1588). Problèmes d'édition et d'interprétation” (Frank Lestringant; 07 de outubro de 2005);
- - “Xamanismo e Música Eletrônica” (Joana Miller, Pedro Ferreira e Tiago Coutinho; 14 de outubro de 2005);
- - “Experimentando Antropologia Simétrica: (1) Azande revisitados; (2) Imagem Transformada: o único e o múltiplo” (Emerson Giumbelli (1) e Olívia Cunha (2); 21 de outubro de 2005);
- - “Gênero: explorações sobre os usos e desusos de um conceito polêmico” (Anne-Marie Colpron, Luisa Elvira Belaunde, Tânia Stolze Lima, Cristiane Lasmar, Bruna Franchetto, Fabiola Rohden, Camila Medeiros; 04 de novembro de 2005);
- - “Novos coletivos: (1) Existem grupos sociais no Alto Rio Negro? (2) Os clichês e seus agenciamentos. Observações na Mangueira” (Paulo Maia (1) e Ana Carneiro (2); 11 de novembro de 2005);
- - “Simetria, armadilha para otários?” (sessão livre; 18 de novembro de 2005);
- - “Sobre alguns fundamentos de uma ética ameríndia: reflexões em torno da idéia de um <Expletivo Categórico>” (Márnio Teixeira-Pinto; 25 de novembro de 2005);
- - “A autobiografia indígena e o sujeito da história” (Oscar Calavia; 28 de novembro de 2005).
Observemos, então, que a Abaeté foi se desenvolvendo a partir de contatos pessoais, em ambientes estritamente acadêmicos ou não, trocas de correspondências, circulação de trabalhos e assim por diante. De especial importância são, sem dúvida, os encontros no Aurora, onde, para falar como Hakim Bey, perdemos a sobriedade sem perder a seriedade. Lembremos, aliás, de passagem, que o livro homônimo de Nietzsche tem como sub-título "pensamentos sobre os preconceitos morais" e como epígrafe "há tantas auroras que ainda não brilharam". E é nesse sentido que a criação de um Wiki Abaeté soma-se a esses processos. Trata-se, acreditamos, de explorar o virtual, mas não no sentido tecnológico restrito do termo, e sim naquele em que o virtual - o possível - é já parte do real. "We're not looking for delicious ironies, but for bursts of light" (Peter Lamborn Wilson / Hakim Bey).
